Articulação acusa Vale de espionagem, trabalho escravo e cooptação de índios

Após anunciar, recentemente, pagamento significativo de dividendos à seus associados, cerca de R$ 1 bilhão, a Vale está sendo acusada de violar direitos humanos e ambientais em regiões por onde opera. A Articulação Internacional dos Atingidos pela Vale lançou o relatório de ?Insustentabilidade? 2015, que faz um contraponto com o relatório de sustentabilidade anualmente divulgado pela mineradora.

O lançamento do Relatório de Insustentabilidade Vale 2015 acontece na véspera da assembléia de acionistas da empresa e em um contexto marcado pelo enfraquecimento do perfil do risco financeiro da Vale, que em janeiro teve a sua classificação rebaixada de ?A-? para ?BBB +? pela Standard & Poor’s. Pelo quinto ano consecutivo, representantes da Articulação dos Atingidos pela Vale participarão da assembléia na qualidade de acionistas críticos.

Na ocasião, serão apresentados aos demais acionistas críticas sobre como a atual estratégia comercial da Vale, de expansão da oferta do minério de ferro e redução dos custos de produção, repercute no território: com maior e mais agressiva pressão pela flexibilização da legislação ambiental e pela agilização das licenças, intensificação da jornada de trabalho e o não-reconhecimento de direitos trabalhistas e a intensificação dos conflitos com comunidades nos locais de operação.

O documento também reúne informações sobre mais de 30 casos de conflitos envolvendo toda a cadeia de produção da Vale em diferentes países onde a empresa opera. Os casos mais graves incluem episódios de espionagem e trabalho em condições análogas às de escravidão, que recentemente foram objeto de denúncias ao Ministério Público, conforme disse nesta quinta-feira ao MONITOR MERCANTIL o economista do Instituto de Políticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs), Gabriel Strautman, entidade que faz parte da Articulação.

A publicação, segundo ele, também apresenta casos de investimentos da Vale em projetos com pendências legais, associadas ao descumprimento da legislação de proteção ao meio ambiente, como o da fragmentação do licenciamento ambiental da duplicação da Estrada de Ferro Carajás.

– Em 2012, a Vale recebeu o ?Public Eye Award?, o prêmio de pior empresa do mundo – disse , acrescentando que, ?se, por um lado, a Vale se esforça para apresentar seu relatório sustentável, esses casos comprovam a insustentabilidade da empresa.?

Strautman lembrou que em março de 2013 um ex-funcionário da Vale denunciou a empresa ao Ministério Público e ao Senado por espionagem. O funcionário trabalhava na área de vigilância e inteligência da empresa. As, informações, de acordo com ele, revelam ações de espionagens da Vale sobre os próprios funcionários, jornalistas, comunidades impactadas e movimentos sociais críticos aos projetos da empresa.

Segundo ele, em Itabirito (MG), a Vale foi responsabilizada por submeter 309 pessoas a condições análogas ao trabalho escravo por uma empresa terceirizada.

Além disso, continua, ?fez levantamento de dados biográficos a partir de acesso a dados do sistema Infoseg e da Receita Federal mediante o pagamento de propina a funcionários públicos.?

Quanto às escutas telefônicas, ele disse que os grampos foram usados internamente sem informar ao empregado e depois usados nas demissões por justa causa; rastreamento de computadores, quebra de sigilo bancário, entre outros irregularidades.

Durante o lançamento, a cacique Katia, da comunidade indígena Gavião, localizada em Bom Jesus do Tocantins (PA), relatou fatos de destruição que a Vale está implementando em sua região. Chorando muito, ele teme pela sobrevivência não só de sua família, como também indígenas de outras tribos, quilombolas e ribeirinhos daquela região.

– É um crime que a Vale está fazendo com os povos indígenas. Não se pode plantar porque a terra morreu. A caça sumiu pelo barulho das explosões e das máquinas e os igarapés secaram pelo assoreamento. Não temos como beber, comer e plantar – disse, aos prantos.

Filha do cacique Pairá, ela frisou que veio ao lançamento para que a população veja o sofrimento dos povos daquela região. E afirmou que a mineradora está pagando propina para os índios para construir barreiras e realizar outras obras.

– Ninguém faz nada. Estamos pedindo socorro. Na nossa terra vivem oito tribos. O local é pequeno. Além disso, a Vale cortou todos os benefícios. Até a saúde. Estamos morrendo – disse, afirmando que já está cansada de não ter voz, de não ser ouvida.

O lançamento aconteceu também em consonância com Semana de Mobilização Nacional Indígena, a Jornada de Lutas pela Reforma Agrária e as mobilizações pela manutenção dos direitos trabalhistas e contra as terceirizações. Estiveram presentes representantes da Articulação Internacional dos Atingidos pela Vale, em especial os moradores de comunidades afetadas diretamente pelos empreendimentos da mineradora nos estados do Maranhão, Pará, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio.

Fonte: Monitor Digital, Marcelo Bernardes, 16/04/2015, link: http://www.monitormercantil.com.br/index.php?pagina=Noticias&Noticia=168876

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