Crime em Brumadinho deixa ao menos 119 órfãos

A pequena Letícia, 6, ficava atenta ao barulho do portão de casa sendo aberto, todos os dias, às 18h30, quando o pai dela, o auxiliar de almoxarifado Peterson Firmino Nunes Ribeiro, 35, chegava do trabalho. Após o rompimento da barragem I da mina de Córrego do Feijão, em Brumadinho, na região metropolitana, que matou Ribeiro e outras 156 pessoas, e de ver as imagens da tragédia na TV, a menina passou a ter pesadelos com um zumbi e acorda de madrugada, aos gritos. “Vou para o banheiro, grito em silêncio. Choro escondido para que as crianças não sofram ainda mais”, conta a mãe da menina, a frentista Michele Aparecida dos Santos, 35, que divide a dor com outros dois filhos, de 11 e 15 anos.

O desastre da Vale deixou ao menos 119 órfãos, filhos dos 134 mortos identificados até o dia 7 de fevereiro. O número pode ser muito maior, visto que 165 pessoas seguem desaparecidas. A maioria das vítimas tinha filhos, sobretudo crianças: o técnico de planejamento e controle Dennis Augusto da Silva, 34, morreu deixando gêmeos de 10 meses, e a mulher dele, Juliana Resende, mãe dos pequenos, está desaparecida. Em alguns casos, os pais não tiveram oportunidade nem de conhecer os filhos – o técnico em eletromecânica Daniel Muniz Veloso e o mecânico Ednilson dos Santos Cruz deixaram as mulheres grávidas.

Por uma semana, até o corpo de Peterson Ribeiro ser localizado, Letícia alimentou a esperança de ver o pai entrar pelo portão para eles brincarem de esconde-esconde, como sempre faziam. “Ela ouvia o barulho do portão e comemorava a chegada do pai. Meu marido vinha se escondendo pela casa, e ela surgia no alto da escada e gritava. Ele fingia um susto, jogava-se no chão e dizia: ‘Você quase me mata do coração’”, lembra Michele.

Com o sepultamento do pai, Letícia mergulhou em uma tristeza profunda. “Vai chegando o horário em que ele chegava, ela corre para a casa da prima, onde quer dormir”, conta a mãe, que se sente desprotegida. A reação do filho mais velho, Leandro, é de silêncio: “Ele não chora, mas vejo muita tristeza nele”. Já Leonardo, do meio, espera o pai até hoje no portão. “Só sei que isso não vai acontecer mais. Nunca tinha sentido essa tristeza”, lamenta.

 

“Toda hora minha filha quer saber que dia o pai dela volta”

A artesã Gisele Fernandes Marques, 34, diz que sofre em dobro com o comportamento da filha Valentina, 4, que perdeu o pai, o bombeiro hidráulico Francis Marques da Silva, 34. “Ele voltava do trabalho por volta das 18h20. Agora, todo dia, nesse horário, ela vai para o portão esperar por ele. Meu marido chegava, e era uma festa para ela”, lembra Gisele. “Toda hora, minha filha pergunta pelo pai e quer saber que dia ele volta. Falo que ele não vai voltar mais, que tiraram o pai dela, que agora ele é uma estrelinha, o anjo da guarda dela”, relata Gisele. “Valentina não queria voltar para a escolinha, dizendo que não ia ter o pai dela para ir à festa do Dia dos Pais”, lamenta.

 

Negação

Caíque, 12, também não quer acreditar na morte da mãe, a camareira Jussara Ferreira dos Passos, 35, mesmo após o sepultamento do corpo. “Ele está ficando na casa da avó. Acha que a mãe vai voltar”, conta a tia Lílian Vieira, 35.

 

Crianças precisam de assistência psicológica

Crianças que passam por grandes catástrofes são “extremamente vulneráveis” a problemas de saúde mental e precisam de acompanhamento, segundo a médica psiquiatra e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Maila Castro Neves.

“Perder os pais é muito grave e aumenta o risco de vulnerabilidade à doença mental. Uma das questões que a gente vê em desastres é o aumento do comportamento suicida, e as crianças são vulneráveis, porque o cérebro delas ainda está em formação”, explica.

De acordo com a professora, são necessárias políticas de prevenção, como acompanhamento psicológico e prevenção de envolvimento com drogas nas escolas. Ela ressalta a importância da reparação célere dos danos provocados pela tragédia para a saúde mental dos atingidos. “Além do estressor agudo, há o permanente. Em Mariana, as pessoas continuam sem casa, e as crianças sofrem discriminação na escola. Diversos fatores estão por vir”, diz.

 

Auxílio

Vale

A mineradora informou “que fez 129 doações de R$ 100 mil, até 6 de fevereiro, aos representantes dos mortos e desaparecidos”. O valor é repassado nessa ordem de preferência: responsável legal por filhos menores; cônjuge ou companheiro em regime de união estável; descendentes e ascendentes. A empresa também está prestando atendimento psicossocial às pessoas atingidas.

Governo

A Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social informou que mantém atividades de recreação nos locais atingidos. Serviços de tratamento assistencial e psicológico também são feitos por profissionais da Secretaria de Estado de Saúde.

Benefício

Dependentes de segurados têm direito à pensão por morte. O benefício pode ser pedido pelo site do INSS.

 

Fonte: Pedro Ferreira | Rafaela Mansur | O tempo

Foto: Fred Magno

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