Arquivo da categoria: Pará – Maranhão

NOTA CONTRA A HOMOLOGAÇÃO DO ACORDÃO DE MARIANA

acordo

Acordão que beneficia Vale/Samarco/BHP é homologado pela (In) Justiça brasileira

Em 05 de novembro de 2015, o povo brasileiro foi vítima do maior crime socioambiental já vivenciado na história desse país, com o rompimento da barragem de rejeitos de minério da Vale/Samarco/BHP, dando início a um desastre que tem causado impactos incalculáveis em Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia.

Em março do presente ano, as empresas elaboraram com os governos federal, estaduais (ES e MG) e órgãos públicos (IBAMA, ICMBio, ANA, FUNAI, DNPM) um acordo que visa à reparação, mitigação e compensação dos prejuízos decorrentes do rompimento. O processo de elaboração do acordo, contudo, deixou de permitir a participação das atingidas e atingidos, interessados diretos na reparação dos danos, o que sinaliza que as empresas responsáveis e o Estado enxergam atingidas e atingidos como objeto e não como sujeitos de direito. O Ministério Público (estadual e federal), diante das diversas ilegalidades contidas no acordo, recusou-se a ratificá-lo.

O Procurador da República, Edmundo Antonio Dias Netto Junior avalia o acordo como sendo uma espécie de consorcio entre as empresas Vale, Samarco e BHP, e Governo.

A homologação do acordo, na verdade, acirra os conflitos, desconsidera a necessidade de reparação integral dos danos e aumenta o sofrimento decorrente da perda dos meios de subsistência, dos modos de vida e da memória impostos aos pescadores, pequenos agricultores, indígenas, populações tradicionais e meio ambiente. E acontece dois dias após a queda das ações da Vale e BHP com a notícia da instauração da ACP pelo MPF, com a estimativa de reparação dos danos na ordem de R$ 155 bilhões.

Infelizmente, desconsiderando todas as ilegalidades apontadas pelo MP e pela sociedade civil organizada, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região, na pessoa da desembargadora Maria do Carmo Cardoso, homologou ontem, dia 05/05/2016 (emblematicamente após exatos 6 meses do desastre), o referido acordo.

Denunciamos que as empresas e o governos federal e estaduais (MG e ES) utilizaram-se de uma artimanha jurídica para viabilizar a efetivação do acordo, visto que o mesmo foi homologado nos autos de um agravo de instrumento que tramita na segunda instância, quando o Juízo competente para analisar a situação é o da Seção Judiciária em Belo Horizonte. O acordo é, portanto, ilegal não só por não contemplar as vozes das atingidas e atingidos, mas em decorrência dos vícios processuais.

Repudiamos a homologação do acordo e exigimos que uma solução seja construída com a participação efetiva das atingidas e atingidos e dos promotores de justiça e procuradores da república diretamente envolvidos com a demanda nos territórios. Não aceitamos a perpetuação da violência realizada por meio de um arremedo de acordo que legitima as práticas criminosas e desresponsabiliza o governo. As empresas responsáveis pelo crime não podem decidir sozinhas sobre a recuperação dos danos difusos e coletivos, além da indenização das famílias, sendo imprescindível a participação direta das vítimas, visto que o caso é decisivo para a reconstrução de suas vidas e do meio ambiente.

Brasil, 06 de maio de 2016

Assinam a nota:

Ação Franciscana de Ecologia e Solidariedade – AFES

AgroredeUFBA/Núcleo Interdisciplinar UFBA de Agroecologia em Rede

Articulação Internacional dos Atingidos pela Vale

AMAR – Associação de Defesa do meio Ambiente de Araucária

APROMAC- Associação de Proteção ao Meio Ambiente de Cianorte

AME A VERDADE

Associação Bem Te Vi Diversidade

Associação Alternativa Terrazul

Associação Brasileira de Antropologia – ABA

Associacao Brasileira de Agroecologia ABA

Associação Ambiental Voz da Natureza (ES)

Associação dos Geógrafos Brasileiros

Associação gaúcha de proteção ao ambiente natural – AGAPAN

Assembleia Nacional dos Estudantes Livres – ANEL

Brigadas Populares

Central Única dos Trabalhadores – CUT

Centro de Direitos Humanos e  Empresas da UFJF

Cimi- Conselho Indigenista Missionário

Centro de Referência Estadual em Saúde do Trabalhador – PA

Centro Comunitário da Vila do Conde – PA

Centro de Trabalho Indigenista

COESA- Conselho de Entidades Socioambientalistas – BA

Coletivo Um Minuto de Sirene

Coletivo Margarida Alves

Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria – CNTI

Comissão Pró Indio de São Paulo

Comitê Nacional em Defesa dos Território frente à Mineração

Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE)

CSP Conlutas – Central Sindical e Popular

CUT Minas

Debate em Ação

ESPAÇO DE FORMAÇÃO ASSESSORIA E DOCUMENTAÇÃO

Fase

Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Urbanas de Minas Gerais

Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Extrativas de Minas Gerais

Federação dos Trabalhadores nas Indústrias do Vestuário de Minas Gerais

Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Fiação e Tecelagem de Minas Gerais

Federação dos Trabalhadores nas Indústrias de Papel e Papelão de Minas Gerais

Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas de Minas Gerai

Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social

Fórum da Amazônia Oriental – FAOR

Fundação Luterana de Diaconia – FLD

FBOMS

Greenpeace Brasil

Gesta – UFMG

GERMEN- Grupo de Defesa e Promoção Socioambiental – BA

Grupo de pesquisa sobre território, trabalho e mercado globalizado – GETTAM/NAEA/UFPA

Grupo de Estudos e Pesquisas Socioambientais – GEPSA/UFOP

Grupo Carta de Belém

Homa

IBASE

IBEIDS

INESC

IEB

Iepé – Instituto de Pesquisa e Formação Indígena

Igreja Cristã de Vila Valqueire

Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs)

Instituto Socioambiental – ISA

International Rivers – Brasil

Instituto de Observação da Terra – INOT

Justiça Global

Jubileu Sul Brasil

KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço

Laboratório de Pesquisas em Arqueologia, Patrimônio e Processos Museológicos Comunitários

Laboratório de pesquisas e práticas sociais na amazônia – LABPSAM/CSA/UFPA

Labcen – Laboratório de Cenários Socioambientais da PUC Minas

Matilha Cultural

Metabase Inconfidentes

Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)

Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST)

Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM)

Movimento Águas e Serras de Casa Branca – Brumadinho – MG

Movimento pelas Serras e Águas de Minas (MovSAM)

Movimento pela Preservação da Serra do Gandarela

Malungo

MAB – PA

Movimento Xingu Vivo para Sempre

Nova Central Sindical de Trabalhadores – NCST

Observatório dos Conflitos no Campo (OCCA)/ UFES

PAD – Articulação e Diálogo Internacional

Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (PoEMAS)

Projeto Saúde & Alegria, de Santarém, Pará

Red Latinoamericana sobre Industrias Extractivas (RLIE)

Rede de Profissionais em Antropologia – PROA

RCA – Rede de Cooperação Amazônica

Radio Brota

Rede Justiça nos trilhos

REAJA- Rede de Articulação dos Atingidos do Projeto Minas-Rio

Serviço SVD de Júpic

Sindicato dos Trabalhadores(as) Rurais de Xapuri

Sindicato – UTE MG

Sinfrajupe – Serviço Interfranciscano de Justiça, Paz e Ecologia

Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região

SOS Serra da Piedade

Toxisphera Associação de Saúde Ambiental

Uma Gota No Oceano

UNICON – Unidos por Conceição

Vivat Internacional

Organizações estrangeiras:

Centro de Documentación en Derechos Humanos “Segundo Montes Mozo S.J.” (CSMM) – Ecuador

Fundar, Centro de Análisis e Investigación (México)

Fundación de Estudios para la Aplicación del Derecho -FESPAD- (El Salvador)

Foro Ciudadano de Participación por la Justicia y los Derechos Humanos – Argentina

ONG de DDHH „Grupo de Trabajo Suiza Colombia“ (Swiss Working Group on Colombia)

Plataforma Interamericana de Derechos Humanos, Democracia y Desarrollo (PIDHDD Regional) – Ecuador

 

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Relato da Articulação Internacional dos Atingidos e Atingidas pela Vale referente as suas ações organizadas no dia 25 de abril de 2016

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No último 25 de abril, oito acionistas críticos,representando organizações membros da Articulação Internacional de Atingidos e Atingidas pela Vale fizeram-se presentes na Assembleia anual de acionistas da empresa. Os objetivos da participação neste espaço frio e de cartas marcadas são firmar uma posição, gerar constrangimento, responsabilizar a empresa pelos danos que causa e exigir respeito. Como os diretores da Vale não se mostraram capazes nem sequer de ouvir, conclui-se que as críticas incomodam, especialmente neste espaço completamente dominado por eles.

Um primeiro embate na assembleia foi a tentativa dos diretores da Vale de inibirem o direito de fala, alegando a irrelevância de assuntos relacionados a problemas de responsabilidade socioambiental da empresa para a pauta da assembleia, e anunciando que intervenções da plenária, mesmo por intermédio da leitura de votos por escrito, fossem limitadas a três minutos. Em resposta, os membros da Articulação disseram com firmeza não entender o que mais eles teriam para fazer que não ouvir os acionistas na Assembleia anual que existe exatamente para este fim.  Além disso, foi colocado que os pleitos de acionistas para se discutir assuntos de responsabilidade socioambiental devem ser tratados com naturalidade, pelo fato de se relacionarem diretamente com questões de desempenho econômico e financeiro que estavam colocados na ordem do dia da assembleia. Mesmo assim, o que predominou foi um ambiente burocrático e autoritário, com tentativas de cercear as falas dos acionistas. Na leitura dos votos dos acionistas críticos, os microfones eram cortados aos três minutos de fala; a única opção era seguir com a fundamentação dos votos com a coragem da garganta!

Sobre o formato e institucionalidade da Assembleia foi demandada, pelo sexto ano consecutivo, a elaboração da ata detalhada, com os votos escritos anexados em sua íntegra, ao invés da ata sumária que comumente é realizada. A falta de transparência da empresa, o péssimo fluxo de informações entre a companhia e seus acionistas e o desinteresse por boas práticas em sua governança são nítidos.

A base para todas as críticas apresentadas foi a omissão da empresa no Relatório de Administração. Nenhuma menção é feita aos elevados riscos financeiros, jurídicos e socioambientais de empreendimentos que atuam com irregularidades no licenciamento ambiental, inclusive com fortes evidências de violações dos direitos humanos denunciadas em diversas ações ajuizadas. Por trás do discurso do acionista preocupado com a imagem, com a reputação, com a credibilidade da empresa no mercado e com a rentabilidade dos negócios, foram relatados casos emblemáticos, como o rompimento da barragem de rejeitos da Samarco (Vale e BHP Billiton), quando se destacou os absurdos de a empresa tentar reiniciar suas operações em Mariana, antes de concluir e divulgar resultados da investigação de suas causas e formalizar um plano de reparação de danos socioambientais, e ainda implantar mais três grandes barragens de disposição hidráulica (usando a mesma tecnologia ultrapassada da barragem de Fundão, que rompeu em Mariana) em uma importante área para o abastecimento humano de água da Região Metropolitana de Belo Horizonte.  Outros casos destacados pelos acionistas críticos foram o Complexo Hidrelétrico de Belo Monte, com suas gravíssimas consequências socioambientais e esquemas de corrupção, a ilegalidade do funcionamento da Companhia Siderúrgica do Atlântico (TKCSA), as violações no Corredor Logístico de Nacala (Moçambique), o acirramento dos conflitos nos estados do Maranhão e Pará, fruto do desenvolvimento do projeto S11D e da duplicação da ferrovia Carajás, entre outros.

Foi apontada ainda a falta de investimentos em pesquisa e desenvolvimento e na aplicação de novas tecnologias (mais caras, porém menos impactantes). Destaque recebeu a necessidade de uma completa revisão na política de responsabilidade social corporativa e, ainda bem marcadas as críticas às estratégias da empresa, dentre elas, a formação de joint ventures e o aumento de produção aliado à redução de custos, algo que muito amplia o risco de acidentes de trabalho e desastres tecnológicos, tal qual ocorreu com a barragem de Fundão.

O único ponto levantado pelos acionistas que teve alguma resposta dos diretores da Vale foi sobre o rompimento da barragem da Samarco  (Vale e BHP Billiton) em Mariana, que causou danos socioambientais ao longo da Bacia do Rio Doce até o litoral do Espírito Santo e Bahia. A empresa disse ter apoiado a Samarco em várias ações, como a compra de água potável, entre outras ações que consideramos insignificantes diante da magnitude da destruição causada à Bacia do Rio Doce. Sobre a causa, informaram que estão realizando uma investigação própria que será finalizada em junho/julho. Nesse ponto, quando os acionistas críticos perguntaram sobre onde os resultados da investigação estarão disponíveis, a resposta recebida foi (pasmem!) “não sabemos se iremos publicar”, o que demonstra que a empresa considera que não deve uma resposta à sociedade.

A proposta de remuneração dos administradores e dos membros do Conselho Fiscal foi também alvo de voto divergente por parte dos acionistas críticos, que a consideram absolutamente incoerente com a situação financeira da empresa: “É vergonhoso que apenas um de nossos diretores receba 848 mil reais por mês (sem encargos) enquanto vidas, comunidades e cidades inteiras foram e continuam sendo destruídas e aniquiladas por nossas atividades.” A objeção dos acionistas críticos tinha ainda mais razão de ser diante do fato de que, no mesmo momento, aos trabalhadores da mina de Fábrica, em Ouro Preto/MG, era imposto um lay off de três meses, período em que receberão apenas metade de seus salários que atualmente gira em torno de R$ 1.400,00.

Foi protocolada uma Nota de Repúdio às empresas mineradoras, firmada por 34 organizações de 12 países que estiveram no VI Encontro do Observatorio de Conflictos Mineros de América Latina[1], por meio da qual se exige que nenhuma nova barragem seja licenciada no Brasil até que se tenha o resultado das causas do rompimento e se avalie criteriosamente novas premissas e normas técnicas. E, ainda, que a sociedade seja efetivamente ouvida para decidir a respeito delas.

Por fim, foi apresentada uma moção pela renúncia coletiva das pessoas que ocupavam os cargos da Diretoria Executiva, do Conselho de Administração e do Conselho Fiscal à época do rompimento da barragem do Fundão. A mesa da Assembleia recusou-se a receber o documento, alegando não ser item da pauta. Foi necessário abordar após a Assembleia a pessoa responsável pelo relacionamento com os investidores da empresa para conseguir um protocolo.

Paralelamente a Assembleia de Acionistas, a Articulação realizou ato no centro do Rio de Janeiro, com aula pública abordando os impactos da mineração e as violações de direitos humanos da empresa Vale no Brasil e no mundo. O Largo da Carioca foi palco de intervenções culturais, performance teatral e exposição de fotos sobre o desastre de Mariana/Bacia do Rio Doce. O grupo caminhou até a antiga sede da empresa, na Rua Graça Aranha, no centro, onde grafitou, desenhou e escreveu palavras de ordem nos tapumes pretos que protegem o edifício.

Com esse conjunto de ações, a Articulação Internacional dos Atingidos e Atingidas pela Vale procurou, mais uma vez, visibilizar a prática operante da empresa Vale de desrespeito sistemático de direitos humanos de comunidades, trabalhadores, indígenas, pequenos agricultores, quilombolas e etc. no Brasil e no mundo.

[1] Ver em: http://conflitosambientaismg.lcc.ufmg.br/noticias/mocao-de-repudio-a-novas-barragens-de-rejeitos-em-mg-e-assinada-por-34-organizacoes/

 

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Audiência Pública sobre os “Meninos do Trem”

O Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) fará Audiência Pública na 9ª Promotoria de Justiça de Marabá, no dia 25 de fevereiro de 2015, em decorrência do procedimento administrativo aberto no município para apurar o caso conhecido por “Meninos do Trem” (crianças e adolescentes que sobem nos trens de carga da mineradora Vale e viajam clandestinamente).
Leia aqui: http://www.ecosdecarajas.org.br/noticias/98/

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Baía de Sepetiba recebe caravanas

Para receber as Caravanas de Minas, Maranhão e Pará, a comunidade do bairro de Sepetiba, na Zona Oeste da cidade do Rio, realizou uma confraternização durante I Encontro dos Atingidos pela Vale. Com o microfone aberto, entre músicas e “comes e bebes”, os presentes fizeram relatos. Cerca de 150 pessoas participaram da atividade do dia 12/4.

Os participantes, que moram em regiões e países de culturas tão diversas, mostraram que sofrem com o mesmo modelo de desenvolvimento. Por meio de seus depoimentos, deixaram claro que a nova forma de produção do sistema capitalista tem globalizado, mais do que tudo, injustiça ambiental e desrespeito aos direitos humanos.

Um integrante da Caravana Norte contou que a atividade econômica de sua região está prejudicada depois que o projeto da Vale chamado “Onça Puma”, em Ourilândia do Norte, no Pará. Como produtor de leite, já não consegue mais obter renda para sua família. “Antes o principal laticínio recebia dos produtores locais 15 mil litros por dia, hoje são apenas 5 mil. Muitos sem ver saída acabam vendendo suas casas, mas para onde eles vão? Com que vão trabalhar?”, questionou.

Já uma jovem de 26 anos que integrou a Caravana de Minas disse se sentir aflita. Ela conta que num primeiro momento ficou desesperada, mas percebeu que sua situação não era um caso isolado, entendendo que poderia fazer algo para mudar unindo-se a pessoas que passam por situações semelhantes. Ela pertence a uma das 47 famílias atingidas pela Vale numa comunidade centenária de Antônio Maria Coelho, no Mato Grosso do Sul.

Durante a recepção das Caravanas, o Comitê Baía de Sepetiba pede Socorro apresentou um pouco da realidade da região do entorno da Baía de Sepetiba por meio dos spots de rádio. A produção denuncia a Companhia Siderúrgica do Atlântico, uma parceria da Vale com a alemã ThyssenKrupp.

Escute a produção “Qual Baía de Sepetiba você quer?”, feita pelo Comitê com a colaboração da Agência Pulsar Brasil e do Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS).

Spot 1_ Geral

Spot 2_ Saúde

Spot 3 _ Trabalho

Spot 4_ Meio Ambiente

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As sementinhas da Caravana Norte

por Padre Dario Bossi – Justiça nos Trilhos

A sapucaia é uma árvore cuja castanha, quando estiver madura, destampa e deixa cair no chão suas sementes, prontas para germinar.

Debaixo de um pé de sapucaia a caravana internacional dos atingidos pela Vale encontra o povo do ‘Bairro da Paz’, uma das muitas ocupações de Marabá-PA. Milhares de famílias instaladas numa desordem total: chegaram em busca de trabalho, na ‘cidade do desenvolvimento industrial’, mas encontraram poucas perspectivas. Como a sapucaia, ao longo da conversa tira-se a tampa do silêncio e da adaptação resignada: as pessoas narram suas histórias e assim jogam pequenas sementes para um futuro diferente.

Na sombra dessa árvore acompanhamos as pessoas que passam, a pé ou de bicicleta. Somos atravessados pelo povo que anda e percebemos a densidade de vida no bairro: 2.246 famílias, muitas delas vivendo ainda em barracos e caminhando por ruas cheias de barro.

O ciclo de mineração e siderurgia desestrutura a base produtiva do povo e expulsa as pessoas de seu chão. O mínimo, nesses casos, seria oferecer melhores condições de existência e moradia a quem de repente fica arrancado de sua terra. Ao contrário: desenraizadas e deslocadas, as pessoas encontram-se amassadas em áreas violentas, sem acesso à educação e com baixa qualidade de vida. Ao seu redor, cada vez mais gente chega em busca da sorte (dizem que nos próximos anos Marabá aumentará do 50%!).

Aumenta a prostituição, diminui o emprego conforme as etapas do projeto (muitos trabalhadores para construir o empreendimento, bem menos quando começa a produção… e os desempregados ficam na região).

Atingidos pela Vale: percebe-se que são bem mais daquilo que aparece!

Mais uma vez tecem-se laços de partilha entre a caravana e o povo: cada membro em visita tira da bagagem de sua experiência comparações, conselhos, propostas.

Fernando, do Moçambique, comenta que na sua terra as casas que a Vale construiu para os desalojados por mineração são ainda piores! Feitas em três dias (!) por pedreiros capacitados em 45 dias (!).

Luís, advogado da causa popular no Peru, incentiva o povo a não desanimar: nenhum despejo pode tirar quem ocupou a terra sem violência, em boa fé e por necessidade.

Logo antes, pela manhã, o seminário entre a caravana e as lideranças locais tinha sido extremamente rico. Os participantes tinham descrito vários tipos de conflitos: a luta pela terra e a expulsão das famílias camponesas, o impacto ambiental da mineração, o inchaço das cidades ‘em desenvolvimento’, a discriminação contra os trabalhadores lesionados e ‘inúteis’, as próprias artimanhas da Vale em cooptar lideranças e aliciar o povo.

Amadurecem estratégias e selam-se alianças: fruto de um cultivo de rede que vem de longe, o movimento parece cada vez mais integrado.

Há quem sente necessárias ações diretas de denúncia e tem quem já trabalha na formação popular e na conscientização a respeito do racismo ambiental, promovendo seminários e pesquisas nos povoados.

Há comunidades que já buscam a integração através de Fórum locais ou redes de articulação regional, primeiro e segundo passo rumo ao processo de consulta popular que os peruanos nos descreveram.

Sente-se o desafio de recolher as informações e colocá-las a disposição de todos/as em espaços de acesso comum (sites ou redes de comunicação).

Permanece, enfim, a relação importante mas às vezes inconsistente com o Ministério Público, interlocutor essencial para a fiscalização das empresas e, em casos desesperados, para as necessárias ações indenizatórias, individuais e coletivas.

A sapucaia ‘destampou’ e as sementinhas estão jogadas no chão. A caravana avança mais um passo, em busca de novas terras e cultivos.

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Movimentos por todos os lados

Café da manhã com a comunidade Burajuba, em Barcarena (PA) (quarta-feira, 07 de abril)

Há povos que se movem pela sobrevivência, empresas que se deslocam pelo lucro. Nós, da caravana dos atingidos pela Vale, percorremos a região norte do Brasil movidos pelo choro do povo e da natureza.

Em Barcarena -Vila do Conde, região industrial e grande porto de exportação do Pará – encontramos várias comunidades e pessoas chorando. A empresa Vale está envolvida em diversos empreendimentos na região: Alunorte, Albrás, Pará Pigmentos e um novo projeto de termelétrica.

As comunidades lamentam  sua precariedade em situações de despejo, extrema poluição e  falta de perspectivas. Companheiros do Chile, Peru, Canadá, Ceará, Rio de Janeiro, Pará e Maranhão abraçam essas pessoas, demonstram solidariedade. Os moçambicanos comentaram: “Em nossa região, pelos despejos que a Vale está provocando, o povo está começando a odiar os brasileiros. Mas, vendo estas lágrimas, entendemos que é a empresa quem merece nosso repúdio!”.

Na Vila dos Cabanos, todos percebem que a luta dos antepassados não foi em vão. Essa luta continua firme e precisa de muita articulação. “Eu sou um matuto do campo”, afirma Alexandre, representante da comunidade indígena Anacé, em Caucaia (CE). “Choro quando escuto camponeses querendo deixar suas terras. Morre nossa alma e nossa história. Essas firmas estão arrancando nossas raízes. Estou com medo que isso aconteça comigo lá em Pecém: estão levantando ao nosso redor uma siderúrgica, uma termelétrica e uma refinaria!”, contou.

Mas nos olhos do povo também há muito brilho de esperança e força de organização. A população local fez um planejamento para os próximos três anos: animar a rede de 250 associações que se articulam no enfrentamento dos desmandos dessas empresas. Também é objetivo dar continuidade à construção do Fórum de Políticas Públicas de Barcarena, que reúne representantes populares, da administração pública e das empresas.

Luís, advogado peruano, sonha a olhos abertos: em vários povoados, lá no Peru, houve processos de consulta popular. “Assim como o povo escolhe seus representantes políticos, pode escolher também seu futuro. 90% das pessoas por lá defenderam a agricultura familiar para suas regiões”, contou.

Cabem algumas perguntas: De que maneira os povos atingidos ou ameaçados pela cadeia minero-siderúrgica podem participar da construção do futuro em suas terras? Será que um dia vão ser protagonistas dos planos de investimentos em seus territórios? Os participantes da Caravana deixaram Barcarena com essas questões na cabeça.

A viagem continua rumo a Marabá.  O debate no ônibus se esquenta entre os 30 membros da Caravana: dialogamos sobre o Fundo de Desenvolvimento, a Análise de Equidade Ambiental, sobre as luta paralelas em Moçambique e no Canadá, sobre formação sindical, entre outros assuntos. A caminhada é longa, mas a Caravana vai fazendo fermentar modelos e perspectivas diferentes na busca de um outro modelo de desenvolvimento.

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Começa a Caravana pelo Sistema Norte

Com  grande ânimo e disposição  se iniciou ontem (5/04) a Caravana pelo Sistema Norte, que inclui cidades do Pará e Maranhão. No final da tarde, os participantes saíram de Belém com destino a Barcarena (PA), em uma viagem de pouco mais de uma hora de balsa, seguida de pequeno trecho rodoviário. O grupo é composto por representantes de sindicatos, movimentos sociais, moradores de comunidades atingidas e ativistas políticos de diversos países e regiões do Brasil.

A programação da manhã de hoje (06/04) começou com apresentações de representantes das comunidades da região.  Durante a tarde, houve visitas às comunidades do Acuí e da Luz Divina, ainda em Barcarena. O tom das falas dos participantes mostrou o desrespeito constante da Vale e de suas subsidiárias aos direitos da população local sobre suas terras e modos de vida.Vila do Conde

No caso da Vila do Conde, a instalação de vários grandes empreendimentos – sendo os principais a ALUNORTE e a ALBRAS – tem poluído praias e colocado em risco de degradação diversos  recursos naturais.  Com isso,  atividades extrativistas tradicionais na região estão impossibilitadas. A população local sofre com a dominação capitalista,  que traz miséria e desumanidade à região que encontra-se  sob os desmandos da Vale.

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